Por que a combinação homem-mulher atravessou milênios?
- Dani Bonachela
- 22 de jun.
- 2 min de leitura

Há perguntas que parecem simples — e carregam dentro delas algo muito maior do que imaginamos.
Por que, em culturas tão diferentes, em épocas tão distantes, em contextos tão diversos, a união entre homem e mulher continuou sendo o eixo em torno do qual a vida humana se organizou?
Não por acaso. E não apenas por biologia.
A resposta mais óbvia — a reprodução — é verdadeira, mas insuficiente. Seres humanos não se unem apenas para procriar. Unem-se para construir sentido. Para habitar juntos o tempo, a dor, a alegria e a morte. Para criar algo que nenhum dos dois criaria sozinho.
A psicanálise nos oferece uma leitura mais profunda. Freud compreendia que o encontro entre os sexos não é apenas um evento biológico ou social — é um movimento do psiquismo. O outro, radicalmente diferente, provoca. Desestabiliza. E é exatamente nessa desestabilização que algo se transforma no sujeito.
A diferença não é um obstáculo ao encontro. É sua condição.
Lacan foi ainda mais preciso ao afirmar que não há relação sexual que se escreva de forma completa — isto é, que o encontro entre o masculino e o feminino é, por estrutura, marcado pela incompletude. E é justamente essa incompletude que mantém o desejo vivo. Que faz com que o outro nunca seja inteiramente conhecido, nunca inteiramente possuído — e, por isso, continue sendo desejado.
Mas há algo além da teoria.
Homem e mulher carregam, cada um, um conjunto de características que não são meras construções culturais. São diferenças reais — no corpo, no sistema nervoso, na forma de elaborar afetos, de perceber o perigo, de construir vínculos, de habitar o tempo. Diferenças que, quando se encontram, não se anulam — se completam.
O pai e a mãe não são intercambiáveis. Cada um transmite ao filho algo que o outro não pode transmitir da mesma forma. A função materna — de acolhimento, presença e continuidade — e a função paterna — de limite, abertura para o mundo e corte do excesso de fusão — são estruturantes do psiquismo de uma criança.
Essa combinação atravessou milênios não porque os seres humanos fossem ingênuos ou submissos a tradições cegas. Mas porque ela funciona — com todos os seus percalços, negociações e necessidade contínua de reinvenção.
O que está em crise hoje não é a união entre homem e mulher. É a dificuldade de sustentar qualquer vínculo profundo numa cultura que valoriza o imediato, o descartável e o sem atrito.
A resposta para essa crise não está no abandono do encontro.
Está na coragem de sustentá-lo.
A psicanálise não romantiza o passado — mas tampouco ignora o que a experiência humana, acumulada ao longo de séculos, tem a nos dizer.
Às vezes, o mais revolucionário é ter a coragem de escolher a profundidade.




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